Menina à Janela
Inspirada na grande obra de Salvador Dalí, intitulada “Menina à janela” (1925), sonho sobre mulheres e suas vicissitudes. Dalí é um espanhol muito conhecido pelo modo excêntrico em expressar a sua arte através da pintura. Nessa obra de imagem icônica e simbólica, retrata a irmã Anna Maria, aos dezessete anos, olhando pela janela, de costas, na casa de férias que a família possuía em Cadaqués, à beira mar. O curioso é que ele a pinta com algumas desproporções notáveis, como os pés, que são muito pequenos. Como um flash onírico, intuo certo aprisionamento da mulher daquela época. Chama a atenção como a arte, em suas múltiplas formas de expressões, representa o amor e ao mesmo tempo a dor da mulher em todo o seu percurso evolutivo e histórico. A mulher só podia contemplar a beleza, o horizonte e o belo pela janela? Anna Maria, menina à janela, mudou e se transformou, penso. A contemporaneidade mostra que a mulher não só contempla o belo pela janela, mas participa, vive e expande os seus horizontes. E foi uma conquista dela própria. Se Salvador Dalí estivesse vivo entre nós, retrataria a mulher em seus infinitos vértices: dançando na chuva sozinha, amamentando em grandes avenidas, pilotando avião, administrando um país, varrendo a rua com dignidade etc.

No contexto do Dia Internacional das Mulheres, essa imagem pode ser interpretada como a busca das mulheres por respeito e dignidade. A janela pode simbolizar a porta para um mundo mais justo. Em Genesis, o Senhor Deus disse: Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja adequada…Então, o Senhor Deus mandou ao homem um profundo sono; e enquanto ele dormia, tomou-lhe uma costela e fechou com carne o seu lugar. E da costela que tinha tomado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher, e levou – a para junto do homem. “Eis agora aqui-disse o homem -osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher, porque foi tomada do homem”, podemos interpretar o versículo, de várias maneiras como uma metáfora para a união e equilíbrio entre homens e mulheres.
Cleuza Perrini preconiza que a “A verdade não está nos próprios objetos, mas na relação entre eles…a função feminina e a masculina, em uma dimensão não sensorial presente em todos os seres humanos e cujo reconhecimento é fundamental para o desenvolvimento mental e social”(2025).Ela ainda enfatiza que “a mulher quando grávida passa a viver as duas funções em ação o tempo todo: a parte masculina, executiva, promove o desenvolvimento da criança dentro de si; a feminina, contém e acolhe a experiência. O homem “grávido” igualmente interage dentro de si as duas realidades: a feminina (acolhimento) ó masculina (segurança)…ao conter suas próprias emoções, bem como ao transmitir essa segurança ao acolher sua mulher e o bebê em formação” (2025).

Associado às grandes transformações que a mulher vem conquistando, infelizmente há novos desafios e mudanças que são ainda expectativas fundamentais em sua vida. É triste ver que ainda há muito machismo e violência contra as mulheres. Eu penso que tudo isso origina-se de uma construção social e cultural que ainda persiste em muitos lugares. O sentimento de posse sobre as mulheres é um problema complexo, é preciso uma combinação de fatores incluindo mudanças políticas, econômicas e culturais, para criar uma sociedade mais justa e igualitária. É importante abordar as raízes do problema, que transcende a cultura do machismo, como a objetificação das mulheres, por exemplo, que estão fincadas em muitos aspectos da sociedade. O feminicídio é um problema grave e crescente no Brasil. Medidas protetivas não estão sendo monitoradas adequadamente, permitindo que agressões continuem a ameaçar suas vítimas. Muitos casos de feminicídio podem não estar sendo registrados corretamente, o que agrava o problema.
A violência contra as mulheres é um sintoma de uma sociedade que ainda perpetua desigualdade entre os gêneros. A implementação de políticas públicas para prevenir e combater o feminicídio ainda é um desafio. Freud em seu texto, Tabu da Virgindade (1918) diz que, “Poucas particularidades da vida sexual dos povos primitivos são tão estranhas a nossos próprios sentimentos quanto a valorização da virgindade, o estado de intocabilidade da mulher”. Seguindo mais adiante, ele nos toca profundamente, em muitos sentidos, “Sei que fomos tecidas em fio de dor e resistência. Sofremos desde os primórdios, em silêncio e segredo. O tabu da Virgindade foi um fardo que carregamos, um peso que nos acompanha, onde não pudemos questionar por um tempo. Freud escreveu sobre isso com olhos de psicanalista, desvendando os mistérios da alma feminina, tão complexa e tão real. A virgindade, um símbolo de pureza e de honra, mas também um peso, um ônus, uma prisão sem saída. Mas resistimos sempre, como flores que brotam na pedra, inquebrantáveis, indomáveis, com uma força que não se mede. Eras e eras de opressão, de silêncio e de dor, mas ainda assim, levantamo-nos, com um grito de amor. Somos a essência de vida, a fonte da criação. E merecemos respeito e amor. A dor pela qual fomos tecidas não apenas nos feriu, mas funcionou como matéria-prima para fortalecer e estruturar a pessoa que nos tornamos”.

Falando em tecidos lembrei dos retalhos de Cora Coralina: “Pedacinhos coloridos de cada vida que passa pela minha e que vou costurando na alma. Nem sempre bonitos, nem sempre felizes, mas me acrescentam e me fazem ser quem eu sou. Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior. Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade …que me tornam mais pessoa, mais humano, mais completo. E penso que é assim mesmo que a vida se faz :de pedaços de outras gentes que vão se tornando parte da gente também. E a melhor parte é que nunca estaremos prontos, finalizados…haverá sempre um retalho novo para adicionar à alma. Portanto, obrigada a cada um de vocês, que fazem parte da minha vida e que me permitem engradecer minha história com os retalhos deixados em mim. Que eu também possa deixar pedacinhos de mim pelos caminhos e que eles possam ser parte das suas histórias. E que assim, de retalho em retalho, possamos nos tornar, um dia, um imenso bordado de nós”.
Maria Angelica Bongiovani – psicanalista, membro efetivo e docente do GEP Marilia e Região e membro efetivo da SBPSP.


