Helen Beltrame-Linné: baseado em uma história real
Já não me lembro quando escrevi a última carta, nem quando recebi uma, mas me recordo bem do quanto era emocionante a chegada do carteiro, receber aquele envelope com meu nome, e me sentar para ler a carta de alguém distante.
Essa recordação me veio a memória ao conhecer a história Helen Beltrame-Linné, uma idealizadora de sonhos e realizações. Sempre ouvimos que algumas histórias de vida poderiam se tornar filme, no caso de Helen isso realmente está acontecendo.

Nascida em Ribeirão Preto, trilhou um caminho singular que a levou da advocacia corporativa ao coração do cinema europeu, passando a viver na ilha de Fårö, lar do lendário diretor sueco Ingmar Bergman.
Tudo começou aos 17 anos, quando assistiu ao filme Morangos Silvestres de Bergman – e ficou profundamente tocada. A experiência despertou nela um desejo que iria além da simples admiração, algo mudou dentro dela naquele momento, e alguns anos depois, decidiu escrever uma carta ao cineasta. Esse gesto simbólico se tornaria um divisor de águas em sua vida. Helen cruzaria o Atlântico para mergulhar de vez no universo do mestre sueco.
Helen estudou Administração na FGV e Direito na USP, chegando a atuar como advogada em grandes escritórios. Apesar do sucesso profissional, faltava algo: o lado criativo, presente desde a infância. A inquietação levou-a a buscar novos caminhos. A carta enviada a Bergman marcou o início de uma ligação duradoura com seu universo cinematográfico.
Mudou-se para a Suécia e acabou assumindo a direção da Bergman Center Foundation, organizando o prestigiado festival Bergman Week. Durante quatro anos, articulou projetos de impacto, como levar o ator Willem Dafoe para residir em uma das casas do cineasta.
Entre desafios e conquistas, Helen conciliou sua identidade brasileira — marcada pela flexibilidade e pelo improviso — com a tradição sueca, mais metódica. Esse intercâmbio cultural ampliou seu olhar artístico e sua percepção do papel da memória cinematográfica.

Agora, sua própria trajetória chega às telas no filme “Uma Carta para Bergman”, coprodução da MVM Movimentos Culturais (Ribeirão Preto) e da Cinemascópio (Recife), com participação de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. A obra mistura documentário e ficção, colocando Helen tanto como personagem quanto como diretora de si mesma.
Mais do que contar a história de uma jovem que escreve a Bergman e acaba morando em Fårö, o filme reflete sobre identidade, coragem e a busca por autenticidade. O filme é um convite para que cada pessoa encontre e honre sua versão mais fiel de si.
Helen mostra como escolhas aparentemente simples — como escrever uma carta — podem redefinir destinos. Sua trajetória inspiradora faz com que os sonhadores e determinados não se conformem com caminhos já traçados, mas busquem a interseção.

Sua história ressoa como exemplo de que a arte e a psicanálise compartilham um mesmo território: o da escuta do inconsciente, da coragem de olhar para dentro e da possibilidade de criar novos sentidos para a vida.

